Jacira espera a visita de 15 pessoas para comemorar a data, além dos sete que moram na residência, no Sol Nascente. Foto: Breno Esaki

Enquanto para uns o Natal e o Ano Novo serão de mesa farta, para outros faltará água em casa. A estimativa é de que pelo menos 913 mil brasilienses, distribuídos em sete regiões administrativas, estejam sem uma gota de água nas torneiras nos dois feriados por conta do racionamento. A situação fica ainda mais crítica para alguns moradores: as mesmas regiões que estarão com corte no Natal terão de passar o Ano Novo no processo de estabilização do abastecimento.

As principais áreas afetadas pelo racionamento no Natal serão Ceilândia Oeste – onde entram Sol Nascente, Pôr do Sol, QNQ e QNR -, Recanto das Emas e Riacho Fundo II. Juntas, as três regiões, que são abastecidas pelo Descoberto, comportam 477 mil habitantes. Já as regiões abastecidas por Santa Maria que também passarão pelo racionamento no feriado religioso serão: Lago Norte, Varjão, Granja do Torto, Saan, SOF Norte, Setor Militar Urbano e condomínios do Jardim Botânico. Estas cidades abrigam 56 mil brasilienses.

A dona de casa Jacira Santos Bonfim, de 38 anos, vai receber a família no Natal. Ela espera a visita de 15 pessoas para comemorar a data, além dos sete que moram na residência. “A sorte é que todos são daqui de Brasília, então sabem que estamos passando por racionamento”, conta, aliviada. Apesar do conhecimento de todos, ela teme passar por alguma situação constrangedora. “Normalmente a gente fica de dois a três dias sem água. Quero só ver como vai ser no Natal, com mais pessoas dentro da minha casa”, projeta.

Ainda assim, Jacira garante que terá um natal animado. “Tenho quatro crianças em casa. Eles esperam o ano inteiro pela data. Fico preocupada, mas é o jeito, vamos ter que nos virar”, afirma. Para ela, o governo poderia suspender o racionamento nos dois feriados. “É uma época em que fazemos uma comida mais especial. Com o racionamento logo no dia, vamos ter que preparar um dia antes, porque a caixa não vai aguentar tudo no domingo”, critica.

Planos abalados

O feirante Francisco Henrique Araújo Cardoso, 20 anos, não comemora o Natal há dois anos. Este ano ele pretende passar com a família dele e a da esposa, Erica Cristina Santos, 18 anos. No entanto, a notícia de que o racionamento vai atingir a região do Sol Nascente na véspera do feriado fez com que o casal repensasse os planos.

“Sem água vai ficar complicado até para lavar a louça que sujar. Isso desanima muito”, lamenta Erica. A soma das duas família chega a quase 20 pessoas.

Na casa dos dois, não há caixa d’água. A solução é armazenar em baldes e garrafas dias antes de o racionamento começar. “Na casa da minha mãe, aqui em Ceilândia, também não tem caixa d’água. E este Natal vai representar muito para mim, porque faz um tempo que não comemoro. Ou vou passar sem fazer nada de novo ou vamos ter que deixar tudo sujo e limpar só no dia que a água voltar”, pondera o feirante.

Pedido chega ao Ministério Público

Para o morador do P Sul Renato Araújo, 39 anos, a população de Ceilândia sofre mais com o rodízio de água, por ser de baixa renda. Indignado com a situação, ele entrou com uma ação no Ministério Público do DF contra a Caesb questionando a demora no retorno do abastecimento.

“Sempre via postagem no Facebook de pessoas reclamando. O MP notificou a Caesb, mas a companhia informou que, por ser uma região alta, teria dificuldades para a água retornar e que leva tempo para a água chegar em casa”, conta. O documento foi arquivado.

Ainda de acordo com o morador, o racionamento impactará nas comemorações. “Vamos ter que contar com água acumulada em balde, vasilhas, e ainda economizando, já que ficamos mais de 24 horas sem água”, conclui.

Chuvas não vão aliviar

Os níveis dos reservatórios da capital têm aumentado. De acordo com a última medição da Agência Reguladora de Águas, Energia e Saneamento Básico do DF (Adasa) feita ontem, o volume útil do Descoberto estava em 20,3%. Em 10 dias, o nível subiu cerca de 10%. Já Santa Maria operava, ontem, com 27% da capacidade.

Segundo Marcelo Resende, coordenador do curso de Engenharia Ambiental da Universidade Católica de Brasília (UCB), as chuvas não aliviaram nem mesmo para uma suspensão provisória do racionamento. “O governo tem que seguir o cronograma, porque estamos com pouca água nos reservatórios. A população, claro, fica insatisfeita, mas ano passado nossa realidade era outra. São etapas que temos que passar”, aponta.

Em dezembro de 2014, Santa Maria estava com 89% e o Descoberto com 67,9%. Em 2015, os reservatórios apresentaram a primeira queda: 80,8% e 46,1%, respectivamente. Em 2016, já com a crise hídrica, o fim do ano foi de volumes baixos com Santa Maria operando em 42,39% e Descoberto com 22,16%.

Para o especialista, não há outro modelo de racionamento viável para o DF. “Esse é o menos penoso, porque a ideia do governo é de inclusive ampliar para dois dias. Se não tivéssemos novembro e dezembro chuvosos, já teriam prolongado. Infelizmente, esse é o mínimo possível que poderá ser feito por parte do governo: um dia de racionamento e dois de retorno”, alega.

A ordem, segundo Resende, é economizar mesmo com as festas de fim de ano. “De qualquer forma, independentemente de crise hídrica, a população tem que fazer o uso da água de forma consciente. É um bem caro e finito. Temos que preservar”, conclui.

Fonte:Jornal de Brasilia

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